É uma cena que se repete diariamente na casa de milhões de brasileiros: você sai do banho, pega uma haste flexível de algodão (o famoso cotonete) e introduz no canal auditivo para “secar” e “limpar” a cera. A sensação pode até ser de alívio e higiene, mas como médico otorrinolaringologista, o meu aviso é urgente: pare de fazer isso agora mesmo.
Nos meus 15 anos de prática clínica, uma das queixas mais frequentes que atendo no consultório envolve complicações causadas pelo uso incorreto dessas hastes. O que deveria ser um hábito de limpeza frequentemente se transforma em dor, infecções e perda auditiva temporária.
Para entender o porquê, precisamos primeiro desmistificar a maior injustiçada do nosso corpo: a cera de ouvido.
O maior erro que cometemos é olhar para o cerúmen (nome médico da cera) com nojo. A cera não é sujeira acumulada, não é falta de banho e não é suor. Ela é uma substância nobre, produzida propositalmente por glândulas no seu canal auditivo externo com funções vitais:
Proteção mecânica e química: A cera atua como um escudo pegajoso. Ela captura poeira, pequenos insetos e sujeiras do ar antes que cheguem ao tímpano. Além disso, ela possui um pH levemente ácido, o que impede a proliferação de fungos e bactérias.
Lubrificação: Assim como os olhos precisam de lágrimas, o canal auditivo precisa da cera para não ressecar. Sem ela, a pele fina do ouvido coça intensamente e descama.
O nosso ouvido é autolimpante. Através dos movimentos da mandíbula (ao falar e mastigar), a pele do canal auditivo “expulsa” a cera velha lentamente para fora. O seu corpo já sabe fazer a faxina sozinho.
Quando você introduz uma haste flexível no ouvido, você acha que está puxando a cera para fora. No entanto, o diâmetro do cotonete é quase do tamanho do canal auditivo. Na prática, você funciona como um “socador”:
1. Formação da Rolha de Cera: Você retira um pouquinho de cera na ponta do algodão, mas empurra a maior parte dela para o fundo, compactando-a contra o tímpano. Com o tempo, isso forma uma “rolha” dura que bloqueia a passagem do som, causando surdez súbita, sensação de ouvido tampado e até zumbido.
2. Infecções (Otite Externa): A pele do canal auditivo é extremamente fina e sensível (muito mais fina que a do braço, por exemplo). O atrito do algodão causa microfissuras invisíveis a olho nu. Sem a cera para proteger e com pequenos “arranhões”, as bactérias da água do banho ou da piscina entram na pele, causando otites externas dolorosas.
3. Perfuração do Tímpano: Este é o cenário mais grave e, infelizmente, comum. Um pequeno esbarrão no braço enquanto você limpa o ouvido é suficiente para que a haste perfure a membrana do tímpano. Isso causa dor aguda, sangramento, perda auditiva imediata e, muitas vezes, exige correção cirúrgica.
A regra de ouro da otorrinolaringologia é: nunca coloque nada menor que o seu cotovelo dentro do ouvido. Isso vale para hastes flexíveis, grampos de cabelo, tampas de caneta ou até mesmo o dedo mindinho.
A higiene correta é feita apenas na parte externa (na orelha, chamada de pavilhão auricular). Ao sair do banho, use a ponta da toalha ou um pedaço de papel higiênico envolvido no dedo indicador e limpe apenas até onde o seu dedo alcançar, sem forçar a entrada no canal.
Algumas pessoas, por questões genéticas, anatomia do canal auditivo (mais estreito) ou uso frequente de fones de ouvido intra-auriculares, podem ter dificuldade na expulsão natural da cera, gerando acúmulo excessivo.
Se você estiver sentindo:
Sensação de ouvido tampado ou entupido;
Perda auditiva repentina (parece que está debaixo d’água);
Dor leve, coceira excessiva ou zumbido.
Não tente resolver em casa e não aplique receitas caseiras. No nosso consultório no Paraíso, realizamos a remoção da cera de forma totalmente segura, indolor e rápida, seja através de lavagem com água morna na pressão correta ou por remoção mecânica com instrumentos delicados sob visão direta (microscópio ou vídeo).
Sentiu que o ouvido tampou? Deixe as hastes de lado e agende um procedimento seguro de remoção de cera conosco. Proteja a sua audição.
Médico Otorrinolaringologista formado pela Faculdade de Medicina do ABC, com residência médica pelo renomeado Hospital CEMA e título de especialista pela ABORL-CCF. Possui pós-graduação em Cirurgia Plástica da Face, entregando um nível de excelência técnica, precisão e segurança em cada diagnóstico e procedimento cirúrgico.
Com mais de 15 anos de dedicação à medicina, o seu maior diferencial é o atendimento humanizado. Aborda clinicamente todas as áreas da otorrinolaringologia, com um foco cirúrgico especial em rinologia (cirurgias nasais), tratamentos para o ronco/apneia do sono e otorrinopediatria, ouvindo sempre o paciente com atenção e empatia.